sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Lá, onde se deixa o coração


Ensinaram-me aqui que o tempo não existe. O tempo pertence ao sol e à lua, nós que vivemos na terra que sabemos do tempo?
Estou deitada na esteira e vejo apenas a lua grande, no céu. Sinto a luz da fogueira que ainda arde, daqui a nada acaba, e aí somos, eu e tu, apenas. E o encontro é feito assim mesmo, debaixo desta lua cheia; com o som do vento nas folhas do coqueiro, e com o cheiro salgado do mar misturado com o odor enjoativo da xima que coze.
Estou na Catembe, na outra margem, e bebo vinho tinto misturado com coca-cola. Sim, de inicio eu também estranhei:
- Mas, que ideia é essa de vinho com coca?
- Sim, nós bebemos, chamamos catembe, em Angola também bebem!
- Sim mas… porquê?
- Mas amiga, tu bebes o vinho puro? Fica muito forte!
- Vocês pa, toda a gente bebe puro, só mesmo vocês é que misturam com alguma coisa!
Mas depois, olhando melhor o pacote (!) de vinho em cima do colmer…
- Bom, pensando bem, dá lá uma coca.
Sim, já disse muitas vezes que aqui me ensinaram sobre o tempo… ou será que foi aqui que aprendi? Porque África não se explica, não se ensina, sente-se.
Daqui vejo as luzes da cidade, Catembe é uma península mesmo em frente a Maputo, o caminho até cá, por terra, é longo e esburacado, fazemos a viagem de barco. Todos aguardamos a prometida ponte que irá atravessar este Índico aqui, onde se mistura com o rio Matola. Uma ponte que transformará esta margem em lugar cobiçado, agitado, vivido. Mas por agora é assim, calmo. Estamos perto da cidade mas aqui há menos luz, o céu encanta-me mais, a água é mais clara e a areia mais limpa. Aqui dá para caminhar de pé descalço sem ter medo de pisar os vidros, as caricas, o lixo que invade a praia do outro lado e que a ninguém parece preocupar. Aqui dá para nadar sem ficar preso no matope pastoso, sem receber em cada braçada os cheiros que o escoamento desorganizado das águas faz do lado de lá da baía. Aqui ainda se sente uma praia, um céu. Eu gosto de vir aqui, a viagem é desorganizada nos pequenos barcos ou no grande, demorado e dispendioso ferry… sim, vir à Catembe é um processo, mas eu gosto de vir aqui.
Depois, deste lado, não há nada: há as barracas das cervejas e do frango no churrasco; há o mato esparso; a estrada de terra batida; há as casas à beira da água entregues ao abandono dos quintais sujos, das paredes secas, das janelas partidas, dos telhados incompletos, das torneiras sem água, dos tectos sem luz… Um dia cheguei a pensar viver aqui, e os meus amigos riram:
- Na Catembe?! Ah, é branca mesmo esta! Não se vive lá, não tem nada! Não tem mercado, não tem restaurante, não tem discoteca, não tem djobs lá! Vais fazer o quê? Mas vão fazer ponte, os chineses vão fazer, depois vamos todos, reserva agora terreno e faz lá quintal com brai, havemos de vir te visitar todo final de semana.
Sim, não tem nada aqui. Mas nós não precisamos de nada, isso eu sei.
Olho a água, num barco está pintado BAGAMOYO.
- Sabes que há muitos lugares que se chamam assim, em África?
- Ai é? E são assim como a nossa rua de bagamoyo?
- Ah! Ah! Ah! Não. Sabes que significa?
- Nada, não sei.
- Lá, onde se deixa o coração.
- Sério? Ya… mas mesmo aqui na nossa bagamoyo muito coração fica! Pensas que não? Essa zona da baixa eeehe! Ali mesmo na rua Araújo muito homem se apaixona. Strip-club é romântico pa! Tem damas doces! Tenho amigo de meu brada que se apaixonou por uma dessas prostitutas de sainha que fica ali na esquina. Ysh, coitado pa…
- Apaixonou?
- Ya, tava mal ele mesmo, depois era já um jonh cota, né?
- Mas sofreu de amores mesmo, mesmo?
- Ei, sofria! Mesmo, vinha ver-lhe to-dos os dias, lhe apanhava de manhã, dava boleias a todas bradas, as outras trabalhadoras do sexo, né? Ya.. via-se que sofria ele.
- Sério?
- Tás a duvidar? Era um assim da tua cor, ele, vocês como sofrem com essas coisas de amores pa!
- Ya…
Eu lembro-me da Tanzânia, para mim o país dos primeiros amores africanos, foi lá que me contaram que os escravos ficavam presos em Bagamoyo, de noite eram transportados de barco para os mercados de escravos de zanzibar, e… chamavam assim à cidade-porto, “bwaga-moyo”, coração ficava ali, porque nunca mais viam a sua terra…
- Essa estória contaram-me lá, na Tanzânia, aqui sabes porque se chama bagamoyo?
- Nada, eu não sei essas coisas de nomes, nem conheço Tanzânia, eu sou daqui, nasci na Mafalala eu!
Eu também não sei, eu não nasci aqui… mas gosto de me perder nas estórias dos lugares, nas razões dos povos.
Contaram-me no Quénia, a propósito de uma zona onde há muitas localidades com o mesmo nome, que os governos, nas suas tentativas de sedentarização das tribos, fomentaram as placas que assinalam as localidades, contaram que as tribos - chegado o momento das chuvas ou das secas, o momento de mudar de lugar - avançavam… levando consigo as placas com o nome, colocando-as nesse outro lugar para onde iam viver. Sim, faz sentido, onde eu vivo chama-se assim, não importa onde é, importa que eu estou aqui.
E na verdade o mal de África é assim, é mal de amor que não se cura mudando de lugar.
Olho o céu. Chovinha. Sim, em moçambique não borraça, chovinha.
Amanheceu já e nós queremos apanhar o batelão de regresso, mas só daqui a uma hora… esperamos.
Sim, aqui aprendi sobre o tempo, de como ele corre, se quiseres; e se suspende quieto, se desejares. O tempo é teu, de nada vale nervosar os dias a tentar viver o tempo exterior a ti. Mesmo eu, que escrevo, finto o tempo, apanhando as memórias do que já passou, do que se perdeu; e viajo, avançando-o nos desejos do futuro…
O ferry chega, tem o mesmo nome, Bagamoyo.
Sim, o presente é hoje, e mesmo nos meus planos de viagem eu acho que é aqui mesmo, é aqui que me fica o coração.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Afecto africano


Estou com amigos em Maputo, num bar da feira popular eles dançam:
- Nice, os teus amigos estão maningue apaixonados!
- Ya… maningue mesmo.
- Namorados?
- Bom… eles estão noivos.
- Ai é? Para quando o casório?
- Hum… ela acho que anelamento foi agora, casa em Outubro.
- Ela?
- Sim. Ah, ya… não estão noivos um do outro…
Claro que é um disparate. É um disparate eu dizer que aqui os afectos são diferentes. Que aqui, em África, há os calores, claro; as temperaturas, com certeza; o ferro da terra; as humidades do ar; as doçuras das frutas; as frescuras dos cocos. Claro há isso tudo aqui. Depois há os mistérios dos desejos, a comunicação tão directa das carnes. Há o magma da terra, a forte energia de Gaia, a inegável fertilidade do vele Rift e o poder fecundador da chuva, sim…
Não sei. Mas a verdade é que aqui, mais do que em qualquer outra parte do mundo que conheço, os afectos e a intimidade se diluem nas relações de fachada.
Acumulam-se invariavelmente em cada homem a primeira, a segunda… a terceira “casa”, em abençoado islamismo ou antropológico tradicionalismo. Na maioria das vezes hipocritamente escondidas por detrás do aparente, e importado, monogamismo.
Mas claro, é disparate. É disparate dizer que aqui é diferente.
Conversamos na esplanada:
- Joana, tens de entender, alegria de Moçambicano ta na cama mesmo.
- Não sei se é essa a questão.
- Sério, pode ter fome, pobreza e nudez em casa, mas sexo não falta.
- Sim, mas não é disso que falo…
- Olha, eu sou moçambicano e cresci nas zonas rurais, vim para a town, enfim por destino, procurando progresso profissional, mas aqui e no mato, o africano, no geral, pode até zangar-se com a mulher durante o dia, não lhe falar e por aí fora, mas chegado na cama, esquece-se as diferenças.
- Ah! Ah! Ah! Sim, mas isso até pode ser bom, né? Não é disso que falo, falo da hipocrisia que anda à volta disso.
- Sim, mas joana, a mentira que se usa… enfim, é de tipos que pensam que falando a verdade pode não dar certo com “casa dois”… é por aí, percebes? Entende-se. Então daí andam mentindo a ver se mantém as duas partes… e isto não é só os homens, as mulheres também.
- Sim, mas é hipocrisia.
- Naturalmente.
- E isso não é nice.
- Lógico. É por isso que para mim a vida é um teatro sem ensaio, planifico o básico – cumpro meu papel - o resto curto à minha maneira.
- Ya, mas eu não gramo disso.
- Como assim? Gostas do "DIRECTO ao ASSUNTO"?
- Claro! Gosto de ser eu e assumir isso em tudo o que faço!

- Ya, nós levamos muito tempo a nos enganar uns aos outros enquanto podíamos poupar muito o time e maximizar os momentos.

- Exacto.

- Ya, tu tens razão, mas não te vais dar bem aqui, sabes?... Não vais não, és muito demasiado ocidental, sabes?

Claro que me farto de escrever que as generalizações são criminosas, e as que eu aqui faço não são menos. Claro que o que é fascinante, em África e no mundo, é a diversidade de culturas que existem, a oposição dos seus hábitos, o contraste das suas tradições, mas que aqui isto que sinto é uma constante, sim, é.
No restaurante:
- Eu estou a perguntar se tu tens alguém. Sim, porque eu estou a dizer directo, eu sou-te fiel, eu não tenho uma segunda pessoa!
- Mas, tu és casado!
- Sim, ya mas… é pá! Porque és confusa!? Tu estás a entender! Eu não tenho uma terceira pessoa!
Mas talvez não sejam mesmo os afectos que são diferentes… talvez seja eu que… os veja com outros olhos.
Os afectos mudam, ou somos nós que mudamos?
Sim, porque moçambicano não dá carinho.
Moçambicano não beija na rua. Não abraça de repente o pescoço, de surpresa… não, tu não és assim.
Telefonas, e é no quase formalismo do “apenas para ouvir a tua voz” que se manifesta o teu… interesse por mim. Mas o amor, aquele que dá frio na barriga, aquele que faz sofrer com as ausências e nos faz tocar, e olhar, e viajar, esse não o sentes. Não é culpa tua que não seja assim. Nem sei eu se não são coisas que estou para aqui a romantizar. Coisas que não existem, que existiram na naifte do passado. Não sei se é a vida que já não me deixa ver assim as pessoas, se é aquilo a que chamam “diferença cultural” que não nos aproxima assim. Mas não, não sinto.
Viajas e esqueces-me. Simplesmente assim. Sem palavras, sem mensagens, sem bips ou pleasecallme.
Os afectos aqui são diferentes… não preciso que mo digam. Sim, revelam-se nas atenções do que… socialmente se vê. Do estilo, tu levares-me a conhecer os teus amigos é coisa afectuosa, é assumir de desejos e compromissos, e tocares minha mão na rua é dizer ao mundo que estás disposto a aceitar-me, a mim, a estrangeira.
Sim… mas não é disso que falo. Falo do colo suave, do carinho simples nos cabelos, do olhar que se prende por um momento no meu. Da mão que num abraço apoia a minha nuca…
Mas disso não há, desse amor revelado e surpreendido nas coisas mais inesperadas, desse não se faz.
Escrevo sobre Maputo, e é a cidade que me fala. São as ruas de alcatrão gasto que sussurram, as acácias que cantam, a marginal molhada que segreda… e são os contentores que espalham os cheiros que guardam os segredos e… não falam.
Reclamo que tu moçambicano não falas, não mimas, não apaixonas – por muito que a palavra te saia facilmente da boca - não sentes…
Mas agora… o verão aquece os corpos e a efemeridade do tempo mostra-se. As mangas na cozinha apodrecem e o queimar do incenso na minha casa mistura-se com a humidade do ar. O quarto está cinzento. E eu sinto-me assim.
Voltam as febres… das gripes de verão, das insolações, das malárias, dos feitiços…
Eu, como fazem os cães quando estão doentes, deito-me e descanso, não como, não bebo. Vejo pela janela os pingos desorganizados das chuvas de Janeiro. Ao lado da esteira um bule com chá de ervas que me trouxe a empregada, e um copo. Estou enjoada.
A verdade é que te sinto a falta. A verdade é que agora, a esta hora do anoitecer em que as cores ficam mais vermelhas e a lua luta por protagonismo com o sol, agora penso apenas no teu beijo. Africano.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Eles


Eu não entendo as generalizações. Claro que me dirão que são compreensíveis, até necessárias na comunicação mas… são perigosas. O risco de tomar a parte pelo todo é muito grande e se nos habituamos a essa… simplificação da comunicação a vida nas suas únicas e maravilhosas nuances passa-nos ao lado…
Estou de viagem:
- Bom, lá vamos nós enfrentar a fronteira. Estes gajos aqui pá… vamos passar mal com eles!
- Não sei… falas dos sul-africanos? Eu tenho boas experiências com sul-africanos…
- Mas buers?
- Sim, tenho boas e menos boas. Com buers, com zulus, com pessoas de origem italiana, portuguesa…
- Esses pior! Sabes que eles como foram forçados a mudar-se para a África do Sul ainda são piores porque tem raivas contra nós.
- Nós? Não sei… eu tenho amigos sul-africanos de origem portuguesa…
- Porreiros?
- Maningue.
- Ya, tu estás cafreal! Já falas mesmo como eles. Sabes o que é cafreal? É aquela galinha que eles fazem por aqui.
- Aqui?
- Em Moçambique.
- Eles?
- Ya.
Eu sorrio um sorriso amarelo… E por esta altura já estou um pouco curiosa… eles? quem são “eles”?
Apetece perguntar… mas corro o risco de me faltar diplomacia… fico em silêncio e observo.
Estamos onde eu gosto de estar, bem no meio do mato:
- Pessoas aqui têm medo de corujas, e quando as encontram matam-nas, claro que eu não, eu sou um ranger, entendo as coisas da natureza, mas as pessoas da minha tribo têm medo. Acham que as corujas porque vivem de noite, e voltam assim a cabeça, quase 180 graus, estão a ver? As pessoas têm medo. E é o medo que nos faz matar. Eu não mato, sei lá se não é meu ndzuti.
- Ndzuti?
- Sim. Acreditamos que o ndzuti é como… uma sombra, um espírito com características humanas, depois da morte de alguém o espírito mantém contacto connosco, e pode estar aí, nesses animais nocturnos. Eu não tenho medo. Faço as minhas oferendas, as minhas homenagens, boas comidas, vinhos, meus antepassados estão em paz.
- Fazem oferendas? Como paxar?
- Oferecemos bebida e comida ao nosso antepassado. Como tu.
- Como eu?
- Sim, pelo menos os portugueses fazem.
- Fazem?
- Fazem isso de, por exemplo cozinhar a comida preferida da avó que morreu e pôr na mesa, num prato. Ninguém come, é para ela. Ou na mesa onde o chefe da família se sentava pôr no lugar dele um copo de vinho…
- De vinho novo. Daquele amargo, com duas colheres de açúcar amarelo.
- Vês? Como tu, tu fazes isso!
- Eu não faço, mas estava a pensar no meu avô, ele gostava de vinho assim.
- Mas pergunta a eles, aos portugueses. Porque eles fazem.
Eu penso na casa dos meus avós, no lugar onde meu avô se sentava, na gaveta onde havia pedaços de pão caseiro e bacalhau assado na brasa. E pergunto-me se alguém lá em casa fazia isso, se eles faziam. E pergunto-me de novo quem são eles. Os “eles” que o Michael conhece fazem isso.
Michael é um experiente ranger de uma reserva privada, e aqui, nas reservas que são privadas, pisa-se o capim, assobia-se para chamar a atenção dos animais e avança-se com o jipe acompanhando duas irmãs leoas, que segundo ele:
- Procuram algo para comer.
Acompanhamos de jipe aberto, nenhum dos rangers está armado. As leoas não querem saber de nós. Não é perigoso, “eles devem saber o que estão a fazer”, penso eu.
Claro que me entusiasma esta proximidade e recebo o meu “momento national geografic” – uma perseguição - uma caçada – uma presa na boca de um predador.
- Um snack – diz Michael – ela nem vai partilhar com a irmã, it is not enought to share.
Eu já tinha estado perto de animais selvagens, muito perto mesmo, mas sempre na sensação de que por acaso, ou por vontade do animal, os nosso caminhos se encontram, aqui não é assim, o desporto é mais radical e avançamos até quase os tocarmos. Eles não se importam. Estamos parados tão perto que podemos ouvir os ossos da cria de worthdog desfeitos pelos dentes afiados da leoa.
Parece tudo tão natural, nós conversamos:
- Casado? Com filhos?
- Sim, casado, com dois filhos.
- Uma mulher?
- Bom… sim, eu tenho uma mulher mas estou aberto para uma segunda e uma terceira.
- Ah! Ah! Ah!
- Sim, eu sou africano e tenho muito orgulho da minha cultura.
- Claro, claro…
- He! He! Não, estou a brincar, nós, graças aos casamentos mistos – entre pessoas de tribos diferentes - já não conseguimos manter isso. Pois é, estamos a perder as nossas tradições por nos misturarmos… eu tenho uma mulher e não posso ter mais nenhuma, ela não haveria de permitir, está a ver o que é isto? É uma violência! E uma pena… mas fazer o quê? Fiz minhas opções quando casei com ela… Eu sou africano, devia ser mais tradicionalista talvez, mas é o que dá quando casamos com uma de outra tribo. Porque eu sou Shangaan… Sabe o que significa Shangaan? O que perante a guerra deixa os seus filhos… não é bom nome, mas é minha tribo, fazer o quê? À noite contamos muitas vezes nossa estória, dizemos “Garingani, n’wana wa Garingani!”
- Sim, nós também dizemos isso! Karingana na karingana!
- Dizem, vês? É igual em Portugal!
- Não, nós, aqui em Moçambique, também fazemos!
- Mas tu és de onde?
- Eu?… bom…
- Disseste “nós”.
- Era para dizer “eles”?
- Os moçambicanos?
- Sim, quero dizer, nós, em Moçambique também fazemos isso, ou fazem…
- Isso das estórias? Ya, nós também, dizemos “eu sou o narrador, a filha – são as mulheres que mais fazem - do narrador” e todos repetem “Garingani”.
- Ya, nós… eles… aqui… ali… enfim também se faz isso.
- O que vês ali é um camaleão, sabes o que é?
São animais que mudam de cor. Nós aqui acreditamos que se lhe tocarmos nós também mudamos de cor, eu não gosto dessa ideia.
Eu não tenho medo de insectos, escorpiões ou cobras, mas de camaleões?! Ya, tenho medo! A minha filha lá em casa às vezes persegue-me com um para me assustar.
Que posso fazer? Acho que é essa coisa de mudar de cor que eu não entendo! Talvez por isso tenho medo deles.
De novo “eles”… falariam os meus amigos dos camaleões?

sábado, 25 de dezembro de 2010

Pequena


- É pá… mas este espectáculo não sai, tantas coisas a acontecer… Ontem era porque cenário não estava, hoje problema com divulgação… temos de fazer alguma coisa… Ok, é hoje! Vamos fazer alguma coisa.
- Mas fazer o quê? Vamos ensaiar mais e tentar organizar melhor, né?
- Nada, Joana, não é isso que está a correr mal… achas que é o quê? Isso não é de nada, o espectáculo não sai, apenas isso! Precisamos fazer alguma coisa!
- Sim, mas o quê?
- Meninas, vamos para o hotel, vão lá comprar uma garrafa de vinho.
- Vinho?
- Ya, vinho Joana! Tragam lá e vamos resolver isto.
- Mas como é que o vinho vai resolver… eu não entendo.
- Tá branca essa! Não é para e entender, é para fazer! Vão lá.
Há itinerância de espectáculo com a companhia de teatro de Maputo com quem trabalho, e estamos em Pemba, láaaaaaaaaa – alongando o som como percorrendo a distância - no Norte.
Tudo aqui me lembra a Tanzânia, a pequena aldeia onde vivi. E sei que não era fácil de amar o dia-a-dia exigente de uma aldeia como Mikindani mas sinto uma saudade. De novo as paixões, a temperatura quente, o ar húmido, as cabanas de lama, as mangueiras… os embondeiros! Tinha saudades destas árvores monstro. Da maneira como ocupam a paisagem, da dimensão que tiram às coisas. Árvore que parece brincar com os tamanhos do que a rodeia. Tudo parece estranho, desajustado, cómico… parece que a sua presença denuncia um jogo, um cenário, uma falsidade… porque parece não pertencer a este mundo, parece feita de outra matéria… sim, tinha saudades.
Fotografo os embondeiros no regresso para o hotel, perco os olhos nos topos altos dos coqueiros, sorrio com a minha África.
- Joana como fotografa! Ysh! Aqui ela está bem! Gosta disto, esses sítios pequenos! Esse calor que não dá para fazer nada… Pá, joana fecha a janela, ar condicionado tá a sair assim! Deixa as fotos, é tudo igual, são árvores só.
Eu vingo-me dos dias na cidade e viajo…
Os mundos sobrepõem-se, em viagem. Como missangas dentro de um frasco de vidro, missangas ordenadas por camadas de cores, umas sobre as outras. Ordenadas.
Viajo e acumulo missangas, e a memória surge como a mão que agita o frasco, nenhuma cor combina já, todas se tocam e mesmo sem mudarem de cor respondem aos reflexos das que estão próximas.
E só mais tarde, só nos momentos mais avançados da viagem sou surpreendida por estas memórias misturadas, as que surgem dos cheiros e dos sabores, as que me apanham desprevenida na moleza das tardes quentes, as que me fazem escrever…
Pemba é uma vila pequena frente a uma baía de Índico. Perfeito. O cenário é perfeito.
No domingo passeamos pela praia e parece que toda a gente o faz. Bebe-se cerveja fresca nos bares na praia, come-se marisco grande nas esplanadas. Eu viajo.
E agora, enquando o mar morno me amacia os pés, faço das missangas colares.
Faço e desfaço fios de contas. Volto a fazer.
Não, não tenho vergonha de viajar, de aproveitar todos os momentos de trabalho para fingir que estou de férias
- Bom dia, estrangeira! Mata-bicho já tomou?
- Nada, eu acordei cedo para caminhar na maré mais baixa, mas estou a vir agora mesmo, venho pela areia.
- Ooooh, turista, estamos à tua espera para o ensaio daqui a 30 minutos!
- Sim, vou só passar no pontão.
- Ei, menina da praia, estás a mudar de cor, vamos jantar?
- Peçam para mim, eu vou dar um mergulho aqui mesmo em frente.
Caminho na areia. Ele aproxima-se, os olhos brancos.
Ele aproxima-se, o passo certo de um pé descalço.
Ele aproxima-se:
- Habari za leo?
- Mzuri, mzuri sana. Habari za wewe?
Cumprimento swahili, que se fala por aqui, toca-me na fraqueza e lembro-me das noites misteriosas de Mikindani, onde de noite eu esperava...
Sentamo-nos para jantar e o empregado demora, o pedido tarda, a comida atrasa… e eu lembrada da indolência doce das tardes naquela aldeia aqui tão perto… dou mais um mergulho.
- É estrangeira mesmo, nós ainda nem fomos à água! Ela já tomou mil banhos, ya... brancos? É outra coisa.
A espera é isso, este estar quieto, dentro do tempo que não seu usa. Esperamos o jantar e com isso esperamos alguma coisa mais, e eu fico mais atenta ao que acontece nesse desacontecer. E gosto de o viver assim, no limbo escorregadio do que ainda não chegou.
As mangas crescem no ramo, espero que amadureçam, uma manga madura ao acordar é uma das minhas doçuras preferidas de Dezembro…
Sim, gosto de viver aqui, e todos os dias sinto que nasci cá, e todos os dias sinto que acabei de chegar.
Mantém-se o verão, mantém-se a paixão. E alertam-me os amigos para o perigo deste meu gostar de tudo, deste meu prazer no “desconseguir”, no “confusionar”, no “enjoyar”…
Sim, já sinto os perigos, eu sou nómada… e nesta paixão o “sentir falta” começa a atrapalhar… sim, agora atrapalha-me.
O amor é sedentário, a paixão é nómada. Eu vivo a paixão e sonho com viagens, planeio os caminhos do próximo ano em resoluções de ano novo que prometem liberdades. Mas… se esta minha paixão se transforma… passional, exclusiva, possessiva… se me surge mesmo um amor? Por um continente, por um clima, por um homem… pela expressão e pela descontracção de um povo tão… apaixonante.
Por agora não sei, corro os riscos e escrevo para o Índico. Que a brisa adocicada e quente das monções daqueles com quem partilhamos margens, da índia, faça comigo os fios das memórias.
Compro o vinho e regresso para o hotel, depois do jantar reunimo-nos no jardim.
- Ok, venham todos, vamos, vocês venham para resolvermos isto.
- Papá? Papá onde está? Onde está mais velho? Aaaaah, papá, vem lá! Joana, pequenina, chama lá Samuel e vem pá.
- Mas…?
- Não pergunta e traz o vinho. Não abras! Pai abre.
- Ok, pois, eu abro e vocês aprendam! – ele abre a garrafa, eu aproximo os copos -
- Não precisa copos. - Acocora-se no chão e delicadamente deita um fio de vinho na terra, fala com o português e o xangana misturados – quero pedir licença para fazermos nosso espectáculo aqui, nesta que também é a nossa terra… - eu acho que é uma brincadeira e rio.
- Joana pá!
- …Sorry lá….
- Peço protecção e desculpa por não estarmos a estrear lá na nossa casa Maputo - toca a terra com a mão, e continua a falar este pedido rezado - Sabemos que casa é lá, e nosso coração está lá, iremos levar nosso trabalho para famílias e irmãos, mas pedimos esta excepção para começar aqui… - ele levanta-se e olha para mim.
- Pois, vocês não comunicam com antepassados e depois estranham! Nada, as coisas não funcionam se não falamos com eles, agora tudo vai correr bem. Os copos?
- Mas… pode-se beber?
- Sim, é vinho isso minha filha! Para “paxar” antepassado é o primeiro a beber, agora já podemos partilhar todos.
Brindo com esta minha família, é natal agora, e para mim é tempo que sabe sempre a saudade, os brindes sabem a memórias cheias de cheiros, e a paisagem são as formas encolhidas do frio da serra, lá, do lugar onde eu nasci. Aqui não há serras nem frios, caminho para o embondeiro e peço fotografias, apenas para me sentir de novo assim. Pequena.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Verão moçambicano


Está calor. Tenho no corpo a sensação infantil das férias.
Para mim verão é isso, é expectativa. Dá-me uma dormência respirada, o bafo de calor. O suor que pinga sempre leva-me a banhos que me lembram as piscinas da infância. E mesmo que trabalhe todo o dia, nos mais pequenos intervalos vou lá para fora, e respiro as promessas que o calor traz no ar.
Para mim no verão todas as noites são… novas, apetece estrear cada anoitecer com uma bebida que veja o pôr-do-sol vermelho que só o ferro de África nos dá.
É Verão, nas últimas semanas as chuvas vêm de noite e quando os trovões zangam o céu não resisto aos banhos da água que cai precipitadamente quente… a cidade fica alagada e ganha correntes… dizem-me os amigos que aqui nas terras dos feitiços os rios podem ser pessoas e as pessoas podem ser rios… dizem que o Rovuma é capaz de fazer assim mesmo, descer da distante fronteira do norte e na cidade fazer-se respeitar.
Chove e tudo fica… pronto para… acontecer.
Verão é paixão. Para mim é.
Verão moçambicano é assim, tem misturado nas temperaturas as tradições e as estórias da terra e da água. Nas pessoas o toque liso da pele com o tempero acre-doce do suor.
Moçambicano é paixão e indiferença. Grito e segredo. Carinho e agressão. Elogio e ofensa. Moçambicano no amor é gingão, é quente, é confiante, é...
Moçambicano é tradição de poligamia e importação de monogamia.
Moçambicano é frieza da formalidade de manhã e escorregadio calor húmido de tarde.
Moçambicano controla:
- Tás aonde?
- Ei, telefonas para saber onde estou? Vocês como gostam de perguntar onde estão pessoas!
- Ya, GPS aqui, quero fazer busca e captura.
Moçambicano é gourmet:
- Eu final de semana não como comida da empregada! Nada, aí esposa que cozinha!
Moçambicano não tem segredos:
- Não, eu confio em ti, sou teu, eu! Tu és minha. Vamos lá trocar de celular 24 horas, aceitas?
Moçambicano joga:
- Ya, tu és independente e tal... estamos bem nós, já és quase minha mulher, agora eu vou-te dar as balizas!
Moçambicano educa:
- Mas temos de ter valores.
- Quais?
- Ai é? Então como vais educar um filho?
- Ele vai aprender seus valores…
- Sozinho? Nada! Quando tivermos filho logo que ele desmame fica comigo! Quero ver depois tua independência, vais me ligar TO-DOS os dias!
Moçambicano trabalha em equipa:
- Alô, tás zangada, eu sei, vou te passar meu “advogado”.
- Sabes joana, é bom saberes que… tem contextos específicos… é bom ver que homem africano tem as suas… características, tu já estás aqui há algum tempo e por isso podes entender essas coisas… não é? Já não és da Europa, podes mesmo ser mais tolerante e compreensiva também porque nem todas as pessoas tem a mesma… maturidade, e homem africano nalguns assuntos tem dificuldade em ser ele a avançar, e talvez pudesses ser tu a avançar e a criar as condições necessárias para ele falar contigo e abrir o jogo.
Moçambicano é do mundo:
- Nós não podemos ser namorados. Não a viver aqui! Sim, aqui não íamos nos respeitar, só noutro país… Sim, tinha de ser noutro país. Aqui em Maputo?? Nada, se perde respeito aqui!
Moçambicano é pai:
- Depois eu vou te encher barriga e aí quero ver quem é que vai tchilar até às cinco da manhã na Rua d’Arte até ficar sem voz! Vou ser eu!
Moçambicano tem medo:
- Parabéns pela cerimónia, e… felicidades não é?
- O quê?
- Ya, mais um a deixar o nosso clube…
- Ei, nada! Isto não é nada! Eu sou solteiro na mesma, casar não é de nada, sou solteiro eu! Sol-tei-ri-ssi-mo!
Moçambicano cumpre:
- Homem que é ciumento não é competente!
Moçambicano declara:
- Alô? Eu estou com os copos e o meu coração ainda é teu.
Moçambicano descrimina:
- Ei, eu não gosto de mecha, extensão, não sei quê! Eu gosto de cabelo natural.
- No outro dia, quer dizer – reformula - há um ano, aquelas… essas meninas daqui que mandam sms “papai…” depois chamam essas nomes “papa, pai” e pedem “tou pidir crédito...” Sou banco eu?!
Moçambicano procura:
- Ontem não te encontrei na night.
- Querias? Porque não me ligaste?
- Nada, queria te ENCONTRAR, chegar assim de surpresa e fazer "cheguei".
Moçambicano ameaça:
- TU vais te apaixonar por mim! Eu sou teu homem diz lá! Diz! Ah tas a mentir! Diz com sentimento! Anda lá admitir, tens tanto problema em assumir porque, pah! Orgulhosa. Anda lá, acabaram as eleições, ganhaste.
Moçambicano explica:
- Ya, sabes… desculpa a cena do outro dia mas… ela é muito ciumenta… tu mandaste sms né? Eu estava no banho, ela apanhou e viu, então eu liguei-te só para ela ver uma coisa! Entendes? Desculpa lá, não deu para evitar o desequilíbrio e a ciumeira… Por isso é que a relação tá no fim, não dá pah…
Moçambicano é fiel:
- Ysh! – bate-lhe nas costas - irmão, salvei tua pele, ligou tua dama, ligou aqui, quando estavas lá dentro, eu falei, “neguinho está aqui comigo, só foi no banheiro”.
Está calor.
Privo com moçambicanos que por uns momentos esquecem que sou estrangeira, branca, mulher. Sim, agora e aqui, nesta noite, depois de mais de três copos de Laurentina preta tudo se fala… porque eu não sou a legítima, a mãe dos filhos, a que vive lá em casa.
Estou na esplanada com mais de 10 homens, entre moçambicanos formados no Brasil, jornalistas e desportistas, estrelas de televisão, fotógrafos e frelimistas. A conversa faz-se pelas mesas, sem limites de conhecimentos ou formalidades de contextos, e entre o comentário ao jogo de futebol que passa no ecrã gigante e a conversa sobre as mulheres tudo entra no mesmo ritmo, na mesma efusiva alegria de quem vê um golo.
Na despedida comenta o sul-africano:
- My friend, your wife is beautiful.
- Hey, I am not is wife! C’mon if i was his wife I would not be here!
- Yes, she would be at home…
- Sleeping…
- Ya, a dormir…
- Ya, a mandar mensagens.
- A telefonar… - toca o celular, ele aclara a voz, levanta-se, compõe a camisa – Olá, como estás?
– “Como estás?” Aaaaahhhh é esposa essa!
Está calor, há muita humidade no ar. Agora não chove.
No rádio toca “ela cozinha muito bem, eu é que não como em casa…. Ela me espera tooooooooooda noite, só chego de madrugaaaada…” – ele levanta-se:
- Gramo dessa música, anda cá! Dá lá uma passada comigo!
Dançamos, a camisa dele cola-se ao meu vestido e os suores misturam-se.
Verão é paixão. Para mim é.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mozambique no fake


Em Moçambique vive no mesmo coração a desconfiança e o orgulho do que é nacional, e nesse conflito o lugar é de personalidade forte. Forte na miscelânea; de línguas, de vozes, de contextos. Sim, é espantoso o contraste entre a que carrega às costas o bebé e vende amendoim torrado na rua e o que sai do Jaguar em fato Armani e sapatos Ferragamo importados. Maputo é… difícil de explicar e forte no sentir e é na procura desta expressão que transcrevo, sem edição, a carta online de um amigo de Maputo.
RASCUNHO DE UMA CARTA ABERTA A UM DJELAS QUALQUER…
Hey, you… Este texto é para ti mesmo, djon! Tu que me tens estereotipado e catalogado em função do que tu presumes ser que eu seja. Eu vou te ajudar a entender-me:
Modéstia a parte, eu sou um dos gajos mais influentes do Facebook nacional, heheheheheheheheheh… Da mesma forma que venho teclando contigo, faço o mesmo com tipos como o Basílio Muhate, Dino Foi, Quitéria Guirrengane, Erik Charas, Eduardo Namburete ou Filipe Vieira (jornalista de um mass-media internacional). Teclo com estudantes universitários, actores de teatro, donzelas, académicos vários, empresários, frustrados, europeus, deputados, congoleses, desempregados, batedores de carros, brasileiros, escritores, prostitutas, vendedores ambulantes, playboys, cientistas, assaltantes a mão armada, donas de casa, brancos, músicos, etc… Tipos com potencial para perpetuar ou para mudar a merda do país em que vivemos ou o seu espaço físico (Europa, Ásia, América, Xipamanine, Sommerschield, UEM, barracas, igrejas, tabacarias, chapas e sei lá mais o quê…);
Eu vim dos subúrbios mesmo. Daqueles becos sujos e lamacentos da Mafalala, onde já dormi literalmente em cima de charcos de água estagnada. Vivi dois anos em Quelimane numa palhota coberta de folhas de coqueiro e com paredes de areia maticada, dormindo em esteira que não conseguia ficar impermeável à humidade daquele chão do bairro de Santágua… Já comi peixinhos secos, quase invisíveis, assados em fogo de lenha, em água e sal com xima amarela durante grande parte da minha infância. Não tenho berço mesmo, como uma vez disse uma Patrícia de 40 anos de idade aqui mesmo no Facebook, a meu respeito.
Nunca precisei (nem preciso) de cunhas, nome de família, escovismo servil ou seja lá o que for para triunfar na vida. Mesmo com todas as adversidades com as quais convivi, tenho o maior orgulho de dizer que fui sempre o melhor aluno da minha turma (houve vezes em que era o segundo ou o terceiro, mas já na faculdade, heheheheheheheh). Eu ia à escola sem uniforme (ou com uniforme incompleto, ou com uniforme quase idêntico ao dos restantes), com sapatos rotos e de barriga vazia, e estudava na mesma sala com filhos de gente graúda deste país. Consegui formar-me graças ao esforço e confiança dos meus pais (especialmente da minha mãe) até ser a pessoa que sou hoje.
A minha mãe vende ovos, sabias? E colocou, sustentou e retirou da faculdade um tipo com os tomates que me orgulho hoje possuir. Fiz a faculdade inteira a morar numa casa de um quarto e sala, partilhada com mais 5 irmãos, sem luz e sem água, à 20 Km da cidade capital. Em Tsalala, sabes aonde fica isso?! E há dez anos atrás aquilo era o deserto do Sahara com floresta densa!!! Eu lia fichas e livros de 1 Kilograma (de Samuelson, Huntington, Krugman ou de 300 outros autores), a luz do candeeiro, todas as madrugadas de 2001 a 2006, e graduei quase com distinção…
Hoje até tenho a ousadia de dizer que não uso nem metade do meu potencial (por circunstâncias diversas) e mesmo assim continuo sendo SOBERBO (com maiúsculas e boldado mesmo, significando magnífico, e não presunçoso, heheheheheheheh) que a maioria dos meus colegas, amigos, concidadãos, conterrâneos, compatriotas, companheiros de jornada, de barraca e de vida diversa, etc, que usam quase todo o seu potencial intelectual (ou físico ou mental ou produtivo, whatever) e fazem patavina alguma… Com o pouco que me se tem dado a fazer (que já é excelente, comparado com o que fazem os milhares de lambe-botas, medíocres, alinhados, conformados, parasitas, yes-manistas e servos hipócritas do sistema), tenho contribuído à minha maneira para o desenvolvimento deste país, mesmo recebendo mal ou mesmo nada. Diga à vontade que sou convencido e tal, e que vou dar com a bunda no passeio dos 33 andares, quando for a cair do estandarte em que me julgo encontrar… I DON’T CARE, BABY! O meu mundo não é este nem é aqui, apanhaste? Estou aqui pelo destino e não pretendo morrer em vão, igual a ti ou aos outros que se parecem contigo ou que os tens como referência de vida ou modelo de postura. E apesar de não me sentir parte deste mundo, não desistirei de viver nele porque tenho a plena consciência de ter vindo para aqui com uma missão por cumprir, e vou segui-la até ao meu fim, son. Escreva isso.
Podes falar ou pensar o que te apetecer a meu respeito. Eu sei que cheiro mal, man... Não sou nem pretendo ser perfeito. Sou um gajo focalizado, extremamente competente em tudo o que faço (até a beber, no job ou na cama com as mulheres da minha vida) e isso já me basta. Tenho luz própria, percebes?... Este texto não é de modo algum auto-promotor ou sei lá. É só para me perceberes melhor. Não é da tua conta se tenho pretensões de grandeza, se tenho problemas de regressão psicológica ou se bebo porcamente, djon… A vida é minha. Ou é tua?! Aonde é que te dói se o meu salário serve para sustentar os meus vícios e caprichos? Quem é que esfola o cabedal, eu ou o teu pai? Grrrrrrrrrrrrrrr… Eu já me dou por satisfeito se hoje compro um fato Giorgio ou se tomo 13 caixas de cerveja preta em dois meses, sem pestanejar!...
Para te deliciares, e em jeito de fecho, meta no teu traseiro estes versos:
"Deixa a vida me levar para onde a vida quiser
Mas às vezes também vou para onde a vida não quer…"
(Gabriel o Pensador, "Deixa Quieto")
E porque este mano é dos que gostam de partilhar, de dar a cara, de se assumir – com o orgulho que não preciso de reforçar porque esta carta fala por si - este identifico-o: Edgar Barroso. E porque eu gosto das coisas “no fake”, verdadeiras mesmo, ao Edgar, o meu grande kanimambo (obrigada).

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Peneira vida


Quando cheguei a Moçambique montei casa, e nas práticas locais casa envolve empregada, e guarda, e jardineiro… E nas práticas locais ser senhora tem regra, faz assim, e assim… e ouvia eu todos os dias:
- Mas senhora… Senhora não sabe afinal? – seguia-se um olhar de soslaio, um desdém que afirmava categoricamente, “esta senhora nem sabe ser senhora!”
E cada dia sentia mais forte este meu destalento para senhoriar casa em África.
- Senhora, não tem pilão aqui em casa.
- Senhora, não tem ralador de coco aqui em casa.
- Senhora, não tem fogão de carvão.
- Senhora, não tem esteira….
A cada uma destas afirmações seguia-se a minha expressão aberta, a minha interrogação escandalosa. Eu se na grande maioria das vezes não sabia de que falava Leontina, numa minoria das vezes pensava que sim e arriscava e na totalidade destas tentativas eu… falhava.
- Senhora aqui nessa casa nem peneira não tem!
Eu não sabia. E na verdade como nas mais profundas aprendizagens da vida o entendimento de tudo isto só chega mesmo mais tarde. Sim, claro que com a ajuda da empregada a casa passou a ter todas estas coisas, mas na minha cabeça a função delas era… misteriosa. Não tanto a funcionalidade, um pilão de inicio estranha-se mas depois vê-se bem para que serve. Ou não… um utensílio em casa africana não é apenas isso. O que me parecia ver nos olhos de Leontina é verdade, para ela uma casa sem estas coisas nem é casa!
Visitei Nampula. Viajo sempre.
E em Nampula encontramos outro povo.
O povo da floresta, que tece com ervas a vida.
O povo dos Grandes Lagos, que peneira entre ervas seus grãos de vida.
O povo do sorriso que habita muito Moçambique. Espalhado pelas terras, junto aos lagos e na costa, entre as melhores comidas e as magias mais densas.
As ervas, os frutos, as sementes.
- Aqui temos medo, joana. Homem que viaja para Nampula para trabalhar não regressa, macua engarrafa pa!
Claro que me falam da beleza, da beleza das mulheres.
Das peles claras na misturas das gentes, nos sorrisos rasgados, no arrastar misteriosamente sensual de um chinelo, no manear lento da anca.
Macua trabalha as intimidades com óleos de coco, e os músculos mais secretos enfeitiçam os homens. Aqui diz-se assim.
Macua não trabalha, banha-se e trata-se com pós de mussiro – pó feito no esmagar de um arbusto - e outras ervas mágicas.
Nos rostos as máscaras de beleza emitem os sinais.
Nas ruas de Nampula passam as mulheres, chinelos arrastados, capulanas na cintura, trouxa na cabeça e no rosto… a máscara branca do mussiro.
Nas ruas de Nampula as mulheres passam a sua mensagem, não é preciso falar ou cantar, olhar com sugestão ou acenar o atrevimento, não é preciso. Basta saber no rosto desenhar a máscara de pó, e dependendo das formas e da opacidade das cores e das quantidades comunicar. Sim, eles sabem.
São beleza e comunicação, com o homem marido, com as amigas, com o homem amante… dão sinais da disponibilidade para o amor, do estado físico, falam das vontades e das indisponibilidades. Falo das íntimas, claro. Macua é intimidade, é fogo no amor.
E dizem que são as montanhas que enfeitiçam as gentes.
As montanhas enquadram a paisagem feita de longos coqueirais… ainda me deslumbram os topos altos dos coqueiros, que doiram ao sol.
O calor é seco. E na rua principal de Nampula eu caminho.
O sol brilha o azul do céu. Não sei como é mas o ar parece assim, brilhante.
Em frente ao hotel uma criança pede esmola, está no chão, as pernas parecem braços e são inúteis para caminhar, às mãos parece que nenhum pulso se liga e são inúteis para agarrar. Ele arrasta-se no chão. Olha-me. Apenas. Eu olho de volta. Tiro uma fotografia, ele não sorri.
Visito nos mercados os lixos e os peixes, o tabaco enrolado e as longas bancas de missangas de plástico, todas as cores e combinações. As vendedoras de carvão, longos corredores de chão enegrecido pelo pó de carvão. Neste chão sentam-se as mulheres que carregam crianças. As crianças mulheres vendedoras, sorriem para mim.
Vejo nos mercados os objectos de casa… aprendo, aprendemos sempre.
Nas bancas ao fundo vendem ethekwa.
Feito de tiras finas raspadas das canas de bambu. As tiras entrançadas no fundo, terminadas com o muyepe, um pau bem raspado, cosida no final com o arbusto hururi.
Na ethekwa a mulher transporta e conserva as sementes, os frutos e cereais. Nela ela escolhe o arroz e o milho, a mandioca. Aqui neste objecto vemos o centro da terra, e sem ele mulher não é mulher de verdade, precisa de vizinha, de irmã, de mãe… precisa de perder homem para segunda e terceira mulher.
Aqui começa a vida, aqui se iniciam os jovens.
Ethekwa é abutre e milhafre.
Olaquiwa ensina a todos os jovens como se faz, ensina a entrelaçar no centro as tiras, ensina sobre o centro da terra, sobre a estabilidade do lar.
E quando o homem chega a casa e vê o cântaro de água tapado com ethekwa e com o pau que amassa a caracata por cima ele sabe. Se a peneira está levantada ou ao contrário, pendurada ou no chão, ele sabe. Ele sabe da comunicação do amor. São as palavras do desejo que se revelam assim. Os desejos e os corpos, a indisponibilidade para o sexo, o momento das luas, o convite ao amor.
Nos ritos femininos aprendem as mulheres a falar a partir deste objecto.
Os bebés conhecem cedo o toque das tiras entrançadas. Depois de ser protegido com o banho wakulelia muana a criança deitada na ethekwa é lançada aos quatro pontos cardeais, autorizando o casamento; ou trocada entre mãos saindo e entrando na casa - protegendo dos espíritos.
Está presente nos primeiros passos, quando a criança tarda a começar a andar é sendo arrastada em cima das tiras entrançadas que começa infalivelmente a caminhar.
Está presente na morte, é com ela que abrimos a cova, é com ela que lançamos as terras para tapar o corpo.
Está presente na magia, se o homem é abandonado, é aqui que se misturam os medicamentos tradicionais, durante três dias sivela (gostar) são misturados, e ao fim desse tempo o coração da mulher palpita e nele o desejo de voltar para casa.
A ethekwa é o lar, simboliza a estabilidade, toda a casa tem uma.
Na banca do fundo vendem peneiras, como a que faltava na minha casa…