quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Peneira vida


Quando cheguei a Moçambique montei casa, e nas práticas locais casa envolve empregada, e guarda, e jardineiro… E nas práticas locais ser senhora tem regra, faz assim, e assim… e ouvia eu todos os dias:
- Mas senhora… Senhora não sabe afinal? – seguia-se um olhar de soslaio, um desdém que afirmava categoricamente, “esta senhora nem sabe ser senhora!”
E cada dia sentia mais forte este meu destalento para senhoriar casa em África.
- Senhora, não tem pilão aqui em casa.
- Senhora, não tem ralador de coco aqui em casa.
- Senhora, não tem fogão de carvão.
- Senhora, não tem esteira….
A cada uma destas afirmações seguia-se a minha expressão aberta, a minha interrogação escandalosa. Eu se na grande maioria das vezes não sabia de que falava Leontina, numa minoria das vezes pensava que sim e arriscava e na totalidade destas tentativas eu… falhava.
- Senhora aqui nessa casa nem peneira não tem!
Eu não sabia. E na verdade como nas mais profundas aprendizagens da vida o entendimento de tudo isto só chega mesmo mais tarde. Sim, claro que com a ajuda da empregada a casa passou a ter todas estas coisas, mas na minha cabeça a função delas era… misteriosa. Não tanto a funcionalidade, um pilão de inicio estranha-se mas depois vê-se bem para que serve. Ou não… um utensílio em casa africana não é apenas isso. O que me parecia ver nos olhos de Leontina é verdade, para ela uma casa sem estas coisas nem é casa!
Visitei Nampula. Viajo sempre.
E em Nampula encontramos outro povo.
O povo da floresta, que tece com ervas a vida.
O povo dos Grandes Lagos, que peneira entre ervas seus grãos de vida.
O povo do sorriso que habita muito Moçambique. Espalhado pelas terras, junto aos lagos e na costa, entre as melhores comidas e as magias mais densas.
As ervas, os frutos, as sementes.
- Aqui temos medo, joana. Homem que viaja para Nampula para trabalhar não regressa, macua engarrafa pa!
Claro que me falam da beleza, da beleza das mulheres.
Das peles claras na misturas das gentes, nos sorrisos rasgados, no arrastar misteriosamente sensual de um chinelo, no manear lento da anca.
Macua trabalha as intimidades com óleos de coco, e os músculos mais secretos enfeitiçam os homens. Aqui diz-se assim.
Macua não trabalha, banha-se e trata-se com pós de mussiro – pó feito no esmagar de um arbusto - e outras ervas mágicas.
Nos rostos as máscaras de beleza emitem os sinais.
Nas ruas de Nampula passam as mulheres, chinelos arrastados, capulanas na cintura, trouxa na cabeça e no rosto… a máscara branca do mussiro.
Nas ruas de Nampula as mulheres passam a sua mensagem, não é preciso falar ou cantar, olhar com sugestão ou acenar o atrevimento, não é preciso. Basta saber no rosto desenhar a máscara de pó, e dependendo das formas e da opacidade das cores e das quantidades comunicar. Sim, eles sabem.
São beleza e comunicação, com o homem marido, com as amigas, com o homem amante… dão sinais da disponibilidade para o amor, do estado físico, falam das vontades e das indisponibilidades. Falo das íntimas, claro. Macua é intimidade, é fogo no amor.
E dizem que são as montanhas que enfeitiçam as gentes.
As montanhas enquadram a paisagem feita de longos coqueirais… ainda me deslumbram os topos altos dos coqueiros, que doiram ao sol.
O calor é seco. E na rua principal de Nampula eu caminho.
O sol brilha o azul do céu. Não sei como é mas o ar parece assim, brilhante.
Em frente ao hotel uma criança pede esmola, está no chão, as pernas parecem braços e são inúteis para caminhar, às mãos parece que nenhum pulso se liga e são inúteis para agarrar. Ele arrasta-se no chão. Olha-me. Apenas. Eu olho de volta. Tiro uma fotografia, ele não sorri.
Visito nos mercados os lixos e os peixes, o tabaco enrolado e as longas bancas de missangas de plástico, todas as cores e combinações. As vendedoras de carvão, longos corredores de chão enegrecido pelo pó de carvão. Neste chão sentam-se as mulheres que carregam crianças. As crianças mulheres vendedoras, sorriem para mim.
Vejo nos mercados os objectos de casa… aprendo, aprendemos sempre.
Nas bancas ao fundo vendem ethekwa.
Feito de tiras finas raspadas das canas de bambu. As tiras entrançadas no fundo, terminadas com o muyepe, um pau bem raspado, cosida no final com o arbusto hururi.
Na ethekwa a mulher transporta e conserva as sementes, os frutos e cereais. Nela ela escolhe o arroz e o milho, a mandioca. Aqui neste objecto vemos o centro da terra, e sem ele mulher não é mulher de verdade, precisa de vizinha, de irmã, de mãe… precisa de perder homem para segunda e terceira mulher.
Aqui começa a vida, aqui se iniciam os jovens.
Ethekwa é abutre e milhafre.
Olaquiwa ensina a todos os jovens como se faz, ensina a entrelaçar no centro as tiras, ensina sobre o centro da terra, sobre a estabilidade do lar.
E quando o homem chega a casa e vê o cântaro de água tapado com ethekwa e com o pau que amassa a caracata por cima ele sabe. Se a peneira está levantada ou ao contrário, pendurada ou no chão, ele sabe. Ele sabe da comunicação do amor. São as palavras do desejo que se revelam assim. Os desejos e os corpos, a indisponibilidade para o sexo, o momento das luas, o convite ao amor.
Nos ritos femininos aprendem as mulheres a falar a partir deste objecto.
Os bebés conhecem cedo o toque das tiras entrançadas. Depois de ser protegido com o banho wakulelia muana a criança deitada na ethekwa é lançada aos quatro pontos cardeais, autorizando o casamento; ou trocada entre mãos saindo e entrando na casa - protegendo dos espíritos.
Está presente nos primeiros passos, quando a criança tarda a começar a andar é sendo arrastada em cima das tiras entrançadas que começa infalivelmente a caminhar.
Está presente na morte, é com ela que abrimos a cova, é com ela que lançamos as terras para tapar o corpo.
Está presente na magia, se o homem é abandonado, é aqui que se misturam os medicamentos tradicionais, durante três dias sivela (gostar) são misturados, e ao fim desse tempo o coração da mulher palpita e nele o desejo de voltar para casa.
A ethekwa é o lar, simboliza a estabilidade, toda a casa tem uma.
Na banca do fundo vendem peneiras, como a que faltava na minha casa…

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Da tolerância


Nos meus olhos o reflexo dos brilhos e no ar o cheiro de incenso, na boca a dormência morna do piri-piri e nas minhas mãos a tua. Estás aqui. Partilhamos.

Estou sentada, dançam há mais de uma hora na arena sagrada. Por tantas vezes já me apeteceu fazer o mesmo!
Conheço o suficiente os hábitos do extremo oriente para saber que não funciona assim. Tudo se faz com regra e formalidade. Espero.
Estivesse eu em África e já teria saltado para lá, aliás teriam vindo buscar-me!
Mas… espera, eu ESTOU em África!

Não, não estou. Aqui é um outro lugar.

Em Maputo há um festival. Sabias?
Eu não sabia. Sou estrangeira.
Somos sempre, mas a sensação é nova, temperada. É quente é fria, é doce e acre, de sabor modelado pelo acompanhamento: um molho, um tempero, um refresco, um chá, água Vumba ou… eu levei um amigo.
Maputo é cidade diversa, escrevi muitas vezes. Sim, todo o tipo de pessoas, de nacionalidades, de origens, de culturas, de cores, de credos, de hábitos, de actividades, de filosofias, de práticas, de músicas, de comidas, de bebidas, de livros, de medos, de fé…
Maputo é um elixir de tolerância. Mas é preciso gostar de tomá-lo.
Por todo o lado o corpo entrega-se à observação, à escuta atenta. E enquanto estuda, no seu existir esforça-se. Trabalha na descrição absoluta do gesto, no cuidado no caminhar, na suavidade dos movimentos do olhar.
Mas é inútil, sou estrangeira aqui, e os olhares perseguem-me. As crianças fogem, ou olham-me descaradamente com o à vontade que só a ingenuidade assume. Os mais velhos sorriem. As mulheres olham-me em tempos pausados, estudam-me, desdenham. Os rapazes mais novos acenam, os olhos sugestivos e eu… eu delicio-me! Sem apanhar avião ou passar fronteira eu entrei num outro mundo, e acontece aqui mesmo, na rua entre a minha casa e o lugar onde trabalho.
A dança continua em energia espiralada.
Talvez por cortesia, porque os povos da Ásia têm destas coisas, convidam a dançar:

- Sim! – levanto-me.
- Ah! Bom… ok, espera, vou perguntar… se calhar não podem porque para nós esta dança é sagrada, e… por exemplo nós não comemos carne de vaca…
- Eu não como carne nenhuma. Nem de peixe.
- Ah, ok…
- Mas se não podemos não tem importância, é só curiosidade nossa.
- Vou perguntar…

A música repetida é tocada ao vivo, vários instrumentos em ritmos que lembram os sons afro-brasileiros, e duas vozes, uma masculina e uma feminina que cantam o que me parece um mantra. Dançam. Todos vestidos de brilhos, tradicionais Chania Choli para as mulheres e nos homens o Dhoti Kurta. Repetidos círculos em volta do altar central, em frente do grande altar onde nos olha Shiva montada num tigre, luzes e mil cores.

A dança é repetida, de inicio igual, aos poucos com variações, aumenta de ritmo e viaja até ao… transe. É dançada por mulheres, homens e crianças, tem palmas ritmadas e eu não resisto a acompanhá-las, pode ser sentada mas eu danço!

Ele regressa:
- Pois, parece que dançar não podem, desculpem mas para nós é muito especial esta dança, percebem?
- Claro. No problem.

Eu quero fotografar mas não me apetecem os flash, eu quero copiar os movimentos mas o corpo já não pensa, só faz, bate palmas, e palmas, e palmas.

Passa um homem carregando caixas com paus vermelhos, todos correm a agarrá-los.
- Porque dançam com os paus?
- Hum… porquê? É igual a antes, mas em vez das mãos, para bater usamos os paus...

Não acredito mas não estranho, na verdade mesmo eu que fui muitas vezes à igreja, por exemplo, pouco sei de algumas coisas que lá se fazem!

- Continuem a bater as palmas, vocês estão a apanhar o ritmo! Daqui a duas semanas podem vir dançar!
- Gostariam de comer alguma coisa? Bolinhas com especiarias, são muito boas. É a primeira vez que vos recebemos na nossa casa, por isso gostava de oferecer algo.

A educação nestas coisas é assim mesmo: aceitar, provar, agradecer.

Assistimos a dança Garba, ou Dandia Ras, a tal que se usa com os paus vermelhos, e parece que não se usam apenas como quem bate as palmas. Há os paus vermelhos e outros, decorados com cores e brilhos - tem origem na cultura Gujarati e nas lendas Hindus, uma que se refere a celebrações de colheitas, outra aos guerreiros na batalha entre Ram e Ravana no Ramayana. É o que celebramos aqui, a vitória do bem sobre o mal.

Uma das mulheres dança com um pote de barro, vermelho na cabeça:
- O pote Garbo! Tem dentro uma vela que foi acesa no primeiro dia do festival e que se deve manter assim durante todos os dias do culto.
A mulher dança concentrada, olha-me, conheço-a! Acena para mim.

O pote representa a mãe deusa.
A dança Dandiya Ras é feita à volta deste pote, adoramos a mãe.

Maputo é um exercício para a tolerância.
Sim, porque nós temos tendência para por as coisas em caixinhas não é? Para ver a vida com rótulos, não é? Mas é isso que queremos mudar. Não é?
Quantos partilhamos bairro, prédio, alguns mesmo flat, com pessoas completamente diferentes? Todos somos diferentes, e basta olhar o outro assim, pensando no que é estar no lugar dele. Basta isso. Basta olhar para as pessoas e não ver comunistas, monhés, muçulmanos, moluenes, frelimos, pobres, mulheres, prostitutas, makondes, chinas, catorzinhas, rongas, mulatos, assimilados, engenheiros, canecos, whites, buers, ministros, americanos, serventes, swazis, cristãos… basta olhar para as pessoas e ver… pessoas!
Quantas pessoas em Maputo se deslumbram com a novela “O caminho das índias” e criticam o cheiro “a loja de monhé” do incenso que queima na flat a seu lado?
- Nós não queremos que cometam um pecado.
- ?
- Foram vocês que pediram para dançar? Esta é uma cerimónia religiosa, antes de começar fizemos a purificação do espaço, a mãe de santo veio limpar tudo e por isso não gostaríamos que vocês… é que se subirem ali podem cometer sem saber um pecado e nós não queremos isso, eu pelo menos não quero.

Vivemos em comunidades, é natural, mas podemos viver em muitas, saber, conhecer, partilhar o nosso mundo no mundo do outro.
Não tenhas medo, não é por usares capulana que és atrasada nem é o perfume hugu boisse que te dá sofisticação.
Fui visitar o templo hindu de maputo e há muito tempo que não me sentia tão estrangeira aqui. Entrei e viajei. E não foi só dentro de mim, foi na cara das pessoas que vi onde estava e o quanto era estranho que eu estivesse lá.

Nava significa nove e rati significa noite. Durante nove noites a deusa mãe é adorada nas suas três formas: Durga, Laxmi e Saraswati. Nas primeiras três noites Durga é admirada na sua força e ferocidade. Nas três seguintes Laxmi é convidada para purificar e limpar a mente, finalmente Saraswati para o conhecimento superior. No final das celebrações o ego está destruído, e simbolizando isso mesmo uma efígie é queimada, no décimo dia, o Vijayadashmi, dia da vitória, dança-se a dança da alegria, Rasa, de Shree Krishna e os Gopis.

Não sabias? eu também não.
Fui visitar Shiva. E como anima!
O festival Navaratri é celebrado à noite, vivemos tempo suficiente a dormir sem saber, é tempo de acordar!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Lembras das ruínas?


Ele canta:
“Deixa-me. Deixa-me ao menos subir aos coqueiros, beber a sura e esquecer de ti.”
Eu rio. É mentira, claro. É mentira que me ame, que sofre por não me ver. É mentira que sou especial para ele, que o faço alterar seus dias, seus hábitos, seu sonhar.
Sim, é mentira, mas mesmo assim eu sorrio. O seu beijo é doce, e eu aceito-o.
No prédio em frente cruzam-se nas escadas as crianças barulhentas e as mulheres de salto alto e cabelos falsos, cor de laranja. Sobem os degraus rapazes em fato formal, perfumados, na orelha esquerda um brinco brilhante. Eu olho, eles olham de volta.
O vento venta mais forte. Chega-me o cheiro da xima cozida na panela no fogão de carvão na flat mesmo ao lado. Cheira também a caril, acho.
Do terceiro andar um saco de lixo dependurado no estendal, pinga.
Ouve-se o som do ar condicionado a trabalhar na parede mesmo à minha frente. Eu estou cansada.
Espero. E escrevo.
Estou de visita à casa onde vivi mais de um ano, na baixa da cidade, e agora que me mudei as opiniões dos meus amigos ecoam em mim… sim, vivia numa zona… como dizer? parecem quase ruínas!
Lembro-me de ir visitar contigo as ruínas. Lembras-te?
Nunca escrevi sobre isso, acho que me tinha esquecido… viajámos a Xai-xai, estava ainda há pouco tempo em Moçambique. Viajámos para ver a praia, estava frio, avançámos pela areia mais macia, pelos caminhos mais secundários, fazíamos manobras para regressar e vi ao longe a ruína.
Um hotel enorme, frente ao mar… abandonado. Eu nem hesitei, pedi-te a câmara e avancei, subi para a prancha da piscina olímpica e sonhei com os mergulhos, as pessoas sentadas à volta em fatos brancos e chapéus coloniais. Há lugares que nos fazem viajar, é assim mesmo.
Avancei para o edifício principal, todo o rés-do-chão fechado, vidros ainda inteiros, algumas portas e entradas fechadas com tijolos e cimento.
Avanço a balbuciar coisas, aposto. Entusiasmada com a descoberta. É lugar abandonado, mas cuidado, alguém guarda este lugar, está varrido o corredor, a maioria dos vidros estão intactos. Num deles a frase que me alimenta o vaguear criativo da mente “ help me I am still alive!”
Eu disparo as perguntas da mente fértil:
- “Que terá acontecido, achas que é piada esta frase? Isto é enorme! Linda a vista, porque estará assim? será de quem? O que achas? Vamos explorar mais, eu adorava saber, é fantástico, já viste?”
Pergunto mas não procuro as respostas, procuro o sentir, e mesmo que me respondam que pertence ao senhor Silva, de Maputo, e que é por razões de licenciamento da obra, ou por deslocação da família, ou por fraca exploração turística do país… que são estas as razões porque não funciona, eu não acredito. Para mim não é assim. Não pode ser.
Avanço ao primeiro andar.
Avanço a imaginar as estórias naquelas janelas, nas banheiras, no bar.
E viajo nas ruínas, no abandono da protecção de vida, que é uma casa.
Para mim casa é presenças e casa abandonada é sempre estória… procuro-a. E fantasio, sim.
Não sei se é o prazer de contar estórias que me vem do teatro, mas desconfio que seja o contrário. Mas na verdade é assim, não posso ver uma ruína sem viajar em possibilidades.
Sim, lembro-me.
E mesmo assim, como um lembrete que toca num celular, depois da memória eu lembro-me: aí ainda estávamos juntos. Pois era.
Juntos viajámos para o Xai-xai, anterior João Belo, como homenagem a um antigo administrador deste distrito na província de Gaza.
Estava contigo.
Chapinhei contigo nas lagoas e cheirámos juntos os frangipanis. Sabes, quando provei pela primeira vez anona foste tu que ma deste. Sim a vida é feita de conquistas. De perdas, de danos.
Não sei. Não é o meu sentimento que fala, nem é para ti que escrevo. Mas a memória existe. E se não esprememos nela a doçura com medo do contágio dos sabores amargos que possa trazer, então desperdiçamos possibilidades.
Na ruína do hotel viajei e nas traseiras encontrámos os guardiões. Lembras-te?
Dois homens sentados. Dois homens que pareciam dividir uma pequena divisão.
Estão sentados nas cadeiras meio destruídas que aqui em Moçambique, numa espécie de tradição, são entregues aos guardas, e partilham comida. Alimentam a minha fantasia sobre o lugar e às tuas perguntas dão poucas ou nenhumas respostas. Parece-me que sim, que falaram no senhor Silva de maputo. E mesmo assim eu viajo: mas aqui, o que terá acontecido aqui?
Estou na casa onde vivi um ano, na baixa da cidade, olho para o lado e ele ainda canta:
- Deixa-me, deixa-me esquecer-me de ti…

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Juntos mas não misturados


Vivo em Moçambique e trago comigo não só aquilo que sou, todos trazemos em nós o que poderemos ser.
Vivo aqui e alimento os dias de olhar. O olhar meio fora, muito dentro, de uma estrangeira em maputo. Alongo sobre isso as tardes e a escrita. Deslumbro-me com as questões da comunicação, da identidade, da origem da influência, do contágio.
A cidade é de personalidade excêntrica, mutável, quase esquizofrénica. É exótica como uma bailarina, picante como caril, fresca como Laurentina preta, bruta como diamante, calórica como um saco de castanha, doce como matortor, superficial como extensões de cabelo da china, contestatária como um revolucionário, guerreira como um makonde, suave como óleo de coco, pobre como um caniço, húmida como o suor de Dezembro, quente como o sol que laranja o entardecer e colorida... Colorida como uma capulana.
Viajo para o estrangeiro com actores moçambicanos e os colegas portugueses olham-me, e fazem-no de início com um esboçar de sorriso ainda meio a medo, ainda com dúvida se serei mesmo eu… e quando na hora do mata-bicho me apanham sozinha, do fundo, lá bem do fundo vem a questão:
- Como é que tu te dás assim loira no meio desses pretos todos?
Como posso responder?
Falo-lhe das crianças que me rodeiam gritando “mulungo!” nas escolas de Marracuene? Ou da minha mãe Ju? Da família dos meus amigos que é minha família, com direito a mãe, irmão, casa africana?
Sou convidada para me juntar a um grande grupo que almoça no Zambi, todos com relação forte com Moçambique, portugueses nascidos cá, alguns moçambicanos nascidos e vividos aqui, filhos de portugueses de Quelimane, de Chokwe... Alguns de visita, em viagem, em turismo, outros à procura de oportunidades de trabalho… grupo diversificado, divertido, conversa amena. Contam das saudades dos cheiros, da memória das cores, do prazer no reencontrar dos sabores. Contam da vida naqueles tempos, e já não sei bem como, noto apenas que a narração é feita sempre na positiva:
- Esses tempos é que eram! - eu falo meio a brincar, claro, não quero provocar e muito menos ofender, mas sorrio e continuo:
- Sim, para os brancos eram bons tempos!
Porque para mim a questão do colonialismo passou já há muito dos livros para as ruas e aí o neo-colonialismo que se sente presente no discurso de tantos portugueses a viver em África para mim passa a nódoa, e não resisto a responder aos olhos espantados da minha interlocutora:
- Sim eram bons tempos para os colonos, ou acha que para os escravizados também?
Sim, eu estou de patriotismo ferido. Aqui resisto ao padrão de vida que fazia em Portugal. Sim, podem dizer que sou freak e que vivo na Bagdad de maputo mas na verdade vivo aqui, e por prazer.
É segunda-feira e uma amiga portuguesa que vive e trabalha cá há um ano e tem plano de ficar 10 desabafa ao almoço:
- Sabes, o meu patrão é muito difícil.
- Ya, às vezes o meu também!
- Sim, o meu é… moçambicano, sabes?
- Ya… e então?
- Pois, e sabes como eles são… – eu perco a apetite:
- Não, não sei, como é que “eles” são? Sabes que isso do “eles” não existe!
Os expatriados, estrangeiros e outros migrantes fazem facilmente guetos, vivem em comunidades fechadas. E sim, isto acontece por todo o mundo, é normal, é compreensível, é natural. Mas não é por isso que vou a correr cumprir uma expectativa e responder a um lugar-comum. Como explicar? Para mim é aborrecido rodear-me sempre das mesmas pessoas, com os mesmos hábitos, a mesma fé. Maputo é tão diversa! É estimulante para mim a diferença e sinto bem cá dentro que isso de ser portuguesa não é coisa que venha definida na certidão de nascimento mas também que se gostar de xima não me faz moçambicana também não é por recusar bacalhau que deixo de ser lusa.
Tenho todo o respeito pela diferença de opiniões, acho saudável e até me alimento disso, mas também penso. E com mais ou menos cabelo, seja ele loiro ou carapinha, todos temos esse… como dizer? Potencial.
Vou sair, na night mais elitista de maputo parece que as pessoas convivem alegremente mas na verdade a surpresa vem de onde menos se espera, um português jovem, em maputo em projectos de intercâmbio comenta:
- Sabes aqui o que falta são mulheres bonitas! – eu não quero acreditar que é comentário sobre um país de paisagem humano como a de Moçambique! E juro para mim própria que ouvi mal!
- Como? C’mon, look around! Há falta de mulheres bonitas aqui?
- Claro que sim! Bom, a não ser que gostes de pretas!
Hoje fui jantar a casa de uns amigos que conheço de Portugal. De há muito tempo, da infância acho. No jantar tinham todos a mesma origem, e a conversa animou, e a certa altura surgiu o que foi para mim o slogan da noite:
- Eu costumo dizer que estamos juntos, mas não estamos misturados!
Falávamos da comunicação com as pessoas e do slogan que é usado nas despedidas e nos cumprimentos, no vulgar “estamos juntos”. Eu a falar do que significa… mas depois desta frase… bom, deixa lá o que significa! Não faz sentido explicar Moçambique, África não se explica, sente-se.
Vamos sair e no CFM a malta está junta, mas não misturada, na Rua d’ Arte a malta está junta, e até falo do sítio como um mixed placed… mas misturas? Todos as temos no sangue, mas parece que alguns aqui o ignoram.
E como a inspiração vem de todo o lado e as ideias andam por aí - de tal modo a voar que algumas são apanhadas para a vida das publicidades - então proponho esta a alguma das redes de telefonias móveis – a qualquer uma que eu cá não tomo partidos - este slogan pode vir com um “pacote empresas”, ou ser oferta com o tal DIRE de 1000 dólares:
“Telefonia móvel de Moçambique, para nós que estamos juntos, mas não estamos misturados!”

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Minuto africano


Hoje, dia 1 de Setembro de 2010 é lançado oficialmente o álbum de Afonso Dlhakama “o paish vai ardher”.
Eu abro uma lata de grão que tenho na dispensa, depois de viver em África há mais de três anos já esqueço a regra: ter sempre em casa comida para sobreviver um mês. Quando vivemos por algum tempo num país temos tendência para pensar que dominamos as coisas e dificilmente somos surpreendidos pelos acontecimentos, mas não é assim. Hoje não.
A empregada liga-me bem cedo:
- Senhora? Eu estou na portagem mas.. chapas estão voltar, senhora tem muito barulho eu… não consigo… nada… mas hei-de vire… - a chamada cai. Problema com transportes e comunicações neste país não é novidade, saio para a rua. Smssa um amigo que tenha cuidado com as rotas, “há confusão”, talvez seja do sono, mas eu não levo a coisa muito a sério.
É quarta-feira e eu vou trabalhar, no rés-do-chão o guarda abre a porta:
- Senhora está a ir aonde?
- Ao serviço.
- Ysh, senhora não vai! Hoje polícias estão a disparar, não ouviu? Volta, senhora.
Subo as escadas. Telefono para uma colega, confirma que “nem vale a pena!”
Toca o telefone:
- Duas crianças morreram com disparos da polícia, uma com uma bala no peito, outra na cabeça. Crianças da avenida de Moçambique!
Eu abro o computador.
Toca o celular:
- Joanna my dear you should stay inside today, the all city is crazy, fire everywhere, police! And most places are closed!
Eu acabo de mudar de casa, na rua onde vivia ainda ontem ouvem-se disparos de metralhadora.
Na marginal e na Coop foram começados vários incêndios e duas pessoas já morreram.
Ouvi muitas vezes na viagem que em África tudo muda num instante, que somos sempre estrangeiros e denunciados à primeira vista pela cor da pele, que em situações de conflitos a precipitação é comum, é fácil e até compreensível, que possamos ser alvo de actos precipitados. Aprendi durante a viagem que em África nos devemos afastar das zonas de tumultos, até de ajuntamentos. Manter-nos longe da polícia e esperar. Esperar que tudo acalme. Apenas isso.
É disparate temer a morte em momentos como este, todos sabemos que não se morre em situações perigosas - morre-se. Apenas. A menina que levou a bala na cabeça arriscou-se apenas a regressar da escola…
Às 15 horas sms de amiga Finlandesa:
- Friends of Zego killed at Chamanculo. Oh, Maputo!
As embaixadas avisam que é reacção à subida de preços de pão e chapa, aconselham a ficar em casa e esperar. As embaixadas?
Dizem-me que a uma francesa residente em maputo a embaixada já ligou duas vezes, a mim ninguém da diplomacia me ligou. Mas a mãe do melhor amigo em Maputo telefona, conta das notícias, pergunta das comidas, desaconselha das saídas.
A certa altura todo o bater de porta parece tiro e os risos das crianças na varanda soam a gritos.
Amigo que vive numa das zonas melhores da cidade manda sms:
- Smoke is gone, mas ainda há barricadas, está mais calmo mas à noite pode piorar, Mundo’s tá aberto.
Ainda ontem quando comprei pão pensei nisso, lembro-me que aconteceu coisa semelhante há dois anos e sabemos que sim, tudo pode mudar. Agora estou a arrumar a casa nova, mas na verdade não sei quando tudo ficará fora de sítio.
Está muito calor, pouca humidade no ar. Olho pela janela e vejo os guardas sentados na sombra das mangueiras, dos coqueiros, algumas pessoas passam a pé, sorriem, conversam.
É fácil adormecer numa tarde assim.
Ao longe ouvem-se sirenes, alguns disparos, ainda se vê fumo… dizem que os hotéis da baixa fecharam as portas, ninguém entra, ninguém sai, um homem é atacado no seu carro, tenta entrar no hotel, porta fechada – ninguém entra – ninguém sai.
São 16 horas, aqui ainda se ouvem tiros.
É fácil começar uma guerra numa tarde assim.
Dois polícias armados entram no prédio das traseiras. Calmamente, sem pressas. Na varanda ao lado uma mulher dobra roupa sentada no chão. O meu guarda do turno do dia não veio, o da noite já saiu. No prédio em frente uma mulher bonita sobe três andares com um bidon perfeitamente equilibrado na cabeça.
Morre-se do outro lado da cidade, e eu bebo chá de gengibre e penduro máscaras africanas na parede da minha casa nova. O mundo não é justo.
No mar consigo ver dois barcos tradicionais, de velas brancas, deslizam serenos, com o vento.
As empregadas do andar de baixo conversam banalidades.
Eu medito sobre a mudança. Desde que decidi sair do bairro central que o faço. Mudar é desmontar e construir, é sobre pertencer e ser livre. Medito.
Passa um homem a abanar despreocupadamente um plástico na mão. O guarda do prédio em frente vê as imagens de uma revista National Geografic.
Doem-me os pés. Escrevo sms aos amigos a perguntar como estão. Alguns não me respondem… mas na verdade a maior rede de comunicação móvel de Moçambique não funciona bem.
Recebo chamadas de Portugal, as notícias lá são… alarmistas talvez, a família está preocupada.
Estou sozinha, não saio.
Na acácia frente a minha janela apenas duas flores vermelham um dos ramos. A árvore está quase seca e em contraste a cor das flores parece ainda mais bonita.
Um rapazinho na varanda ao lado brinca com uma bola, olha-me surpreso. Sim, sou nova aqui,
Oiço Nina Simone no tema 4 Women. Oiço um tiro bem perto, corro à janela, o guarda da casa da frente sorri, não é nada. Sugestão apenas.
- Aqui estamos bem, senhora, essa é boa zona. - Não sei bem nestas alturas o que quer isto dizer mas tudo está calmo aqui.
Ouvem-se gritos, ao longe, oiço sirenes de polícia. Ou será ambulância? Nunca vi mais que uma ambulância no mesmo dia em Maputo...
Passa um homem embriagado a gritar mensagens apocalípticas. Duas crianças com pastas às costas riem. O guarda no rés-do-chão adormeceu.
O sol desce. Passam mais carros agora, devagar, como se fosse feriado. Escrevo à janela, o bafo de calor é forte, pesado.
Estamos no Ramadão, a mesquita canta. As famílias dos prédios vizinhos levam para dentro de casa as panelas cozinhadas na varanda, em fogão de carvão.
Amarro uma capulana à volta da cintura e subo ao terraço para ver a cidade com a luz dourada do pôr-do-sol. O trânsito na Av. 24 de Julho já está aberto, ouvem-se vozes ao longe, outra mesquita canta a Alah o misericordioso. Ao meu lado pousa um corvo preto e branco, a que aqui chamam corvo da índia. Olha-me, grasna.
Ligam-me os amigos de Portugal e de maputo os amigos portugueses, a colega finlandesa, a brada sul-africana, a amiga italiana… mas os moçambicanos? Com a excepção de um preocupado mais ninguém parece estranhar sequer. Pergunto como estão na zona e respondem com um  e um “beijos!” Não é estranho o dia.
E na verdade não deixa de me atravessar a mente várias vezes: hoje era um bom dia para namorar.
Em África tudo muda num minuto, ouvi muitas vezes dizer.
Assim mesmo, como se o minuto africano fosse mais rápido ou imprevisível que qualquer outro.

sábado, 28 de agosto de 2010

Morangos na Namaacha


Encontro-a na Namaacha, apresentam-nos:
- Olá. Eu estou aqui porque alguém me chamou, é isso eu faço, eu falo com as pessoas. Olho-as e vejo. E posso dizer-lhes coisas.
Oiço-a, tem na pele a cor misturada, quase laranja, de alguns sul-africanos, tem lábios bonitos, num constante esboço de sorriso, olha-me com olhos redondos, brilhantes, gelatinosos.
- Por exemplo tu. Tens um coração suave. Sorris com facilidade, entusiasmas-te com facilidade…
Sinto cada palavra como se não pudesse impedi-la de entrar assim pelos meus olhos, e é o meu corpo que responde. Como se cada coisa que diz acontecesse em mim.
- Mas também é fácil chorares, ficares profundamente triste… agora estás triste.
Sinto uma lágrima a rolar-me pelo rosto, fico quase surpreendida, afinal estou assim tão triste? Parece até que não sabia.
Na Namaacha encontro a vidente.
Visito a vila pequena, naquela pontinha de Moçambique que parece uma cauda de animal, espetada em terras vizinhas. Aqui é zona de fronteira, com Suazilândia, com África do Sul.
A primeira vez que me falaram da Namaacha disseram-me que tem morangos. Eu duvidei:
- Morangos aqui? Nada. Isso devem ser coisas inventadas pelos sul-africanos.
- É verdade! E temos também um licor.
Eu duvidei, e em visita a Portugal, acompanhada por um moçambicano, foi um português que me confirmou a estória.
Visito a cidade de Óbidos e entre as muralhas escolho Ginjinha da mais tradicional, mais para minha delícia que para interesse do turista, o visitante comenta:
- Isto é tipo licor feito de fruta, não é? É como os Morangos da Namaacha.
- Pois, pois, até me provares isso eu não acredito nos morangos da….
O dono da tasca castiça ouve a conversa:
- Disseram da Namaacha? Namaacha em África? Em Moçambique, ali perto de Lourenço Marques? Esse licor…
No olhar o tempo parado de quem desenterra uma memória.
- Vês? Não te disse que há? Agora que é um português a dizer já acreditas?
Falo baixinho por respeito:
- Eu não quero acreditar, quero provar!
Hoje visito a Namaacha e aqui somos recebidos pelo tio.
- Vamos buscar os morangos da Joana!
Saímos, no quintal está um pastor alemão que rouba de imediato o meu olhar. Corre para mim, salta, é tão parecido com o cão que tive já tive tão perto de mim que eu não quero acreditar, agarro-o no focinho e olho-o nos olhos… é igual. No olhar a doce timidez de quem é reconhecido… e para mim é ele. Olha-me meio espantado que o reconheça. Acho que choro mais uma lágrima.
Na Namaacha vejo a cobra na gaiola de ferro. Na Namaacha como o bolo de chocolate e kiwi.
Sou recebida na casa sem água, com um buraco no quintal, três cães no terreno, um gato, uma cobra e amigos. Na Namaacha conheço mais dos boisses tugas que abundam nesta terra.
Aqui visito as cascatas. Eu sou água. Aproximamo-nos do local da minha maneira preferida – seguindo os locais. Seguimos um grupo de jovens e crianças que carrega roupas na cabeça, falam connosco, e do que dizem pouco é português. Mas entendemo-nos, seguimos os seus passos. À minha frente vejo as montanhas, entre as montanhas as pedras polidas pela água, brilhantes ao sol. Entre as pedras largas passa água, pouco mais que riachos. Eu descalço-me e desço para as pedras, estão quentes. A água é turva e verde, fresca. As crianças descem também para as pedras, com as roupas para lavar, e avançam mais, e mais, e mais. Eu sigo-as, só mais à frente vemos o lugar onde a água se precipita, e lá em baixo a lagoa.
Estamos no lugar da água. Eu sinto-a.
Apetece. Apetece precipitar um salto. Um salto na água das cascatas, como os que nos vendem os romantizados filmes americanos.
Mitos. Em poucos lugares de África me foi possível mergulhar em águas doces. Aqui também não.
Na Namaacha vejo as relações dos homens e as ausências das mulheres. Os desencontros.
Visito as casas que ardem por dentro, sinto o cheiro enjoativo do fumo.
Vou às pequenas lojas que expõem tudo nas prateleiras arrumadas; lâmpadas “Europa”; balanças de pesos (como as que a tia Custódia usava na venda da Loureira); garrafas médias de cerveja. Leio no rótulo de cerveja moçambicana “Raiz”.
- Esta não conheço, levamos?
- Sabes, eu tenho medo dessa cerveja, melhor não!
Na Namaacha vejo as casas cheias de estórias abandonadas em ruínas, habitadas apenas por lixo, preservativos usados, garrafas vazias, colchões imundos… Nas escadas, cuidadosamente, alguém tratou plantas. Dois vasos de terra amanhada e hidratada. No meio do caos a vida parece surgir, eu tenho esperança.
Sobre África alimentamos muitos mitos, um deles é o do clima, que acreditamos sempre que é quente. Mas aqui, nesta África, o clima aqui é temperado. Na Namaacha ameaçam-nos com frio, e confirmam – o tempo dá para morangos.
Mas é só agora, quando finalmente visito a Namaacha e procuro o licor batendo ao portão de ferro da D. Graça, e só quando vejo que o portão está decorado com azulejos da Nazaré e do Ribatejo, e quando sei que acabou de chegar de Portugal… só aqui sei que afinal eu não tenho razão, estes morangos são… é disparate querer saber de onde são.
Namaacha é terra de lendas e eu já nem as conto, sinto-as.
E como nos amores precipitados, que da frescura dos primeiros frutos não conseguimos fazer nada… deste fruto não cheguei a provar o licor.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Não é doença, é feitiço


Estou em casa, está calor. O calor cheio de humidade que torna a respiração pesada, os movimentos lentos, a pele pegajosa, a boca sedenta. Estou deitada numa esteira no chão, perto da varanda, mas nem uma brisa se sente. O calor dá sonolência, não apetece nem levantar a cabeça.
Da sala vem o som dos tambores, na conexão à internet que deixei ligada corre o som da rainforest de um site turístico de Madagáscar, os sons misturam-se com os poemas de Vinicious na música brasileira que toca no leitor de CDS. A música aparece e desaparece em random misterioso, o tambor aumenta, os pássaros competem em composições surpreendentes, o vento parece mexer com as folhas das árvores.
Mas não é assim, não há nem uma brisa, repito, e neste apartamento na baixa da cidade não é comum que se oiçam pássaros.
Mesmo assim pelos olhos entreabertos parece quase que os vejo. Cores brilhantes, movimentos que arrastam os tons, que se misturam na presença brilhante das ondas de calor. Que também podem ser o reflexo da capulana colorida que serve de cortina… mas que apenas pode agitar-se com a brisa imaginada das praias de Itapoã no CD que continua sem parar.
Não consigo levantar-me. A Laurentina preta que bebi há algumas horas adormece-me ainda os lábios. Cheira a incenso de alecrim que queima às sextas-feiras na casa dos vizinhos de baixo. Vindos do corredor consigo ouvir os sons graves e ritmados do pilão a bater o enorme almofariz, esmagando farinha de milho ou amendoim. A chamada para a oração, da grande mesquita da baixa, uma das mais importantes da cidade, intensifica o exotismo da personalidade de Maputo. Eu estou deitada e o meu pensamento divaga. Parece que oiço meu nome, em vozes graves, bem próximo do meu ouvido. Perece tão real, mas o meu corpo não reage em conformidade. As quatro crianças da vizinha do lado correm e riem. Gritam: - Ei, pára com isso! Deixa a água suja aí pá! Vou-te bater eu!!
O tambor aumenta, parecem mais do que um, já misturo os sons dentro da cabeça e por momentos parece que não oiço nada, como se a cabeça estivesse em algodão, os sons muito abafados. Respiro com dificuldade, e parece que adormeço. Os sons continuam presentes, mas o corpo parece perder sensibilidade, mal o sinto. Volto-me sobre o ombro direito, o toque da pele na esteira é áspero, quase arranha.
Oiço a empregada a falar com alguém na porta, o tambor pára e de novo recomeça. Está calor. Apertada na entrada estreita da porta, passando a custo o seu corpo enorme entre o frigorífico e o espanta-espíritos que fiz com conchas e fitas de seda, ela avança. Oiço as conchas em choque, oiço o pau da chuva cair do seu equilíbrio precário na cesta de ráfia. Na entrada para a zona onde durmo - neste estúdio minúsculo que desconfio que não tenha sido feito para habitar não há muitas portas - tintilam as moedas do cinto de danças do ventre que está aí pendurado.
Parece que a minha casa é feita para cuidados, exige lentidões e olhos suaves nos cantos e nas esquinas, está cheia de dependurados e equilibristas que se despenham no solo ao menor descuido.
Descuidada ela avança. As missangas penduradas debaixo da máscara Makonde caem em três movimentos bruscos.
Eu estou deitada, está calor e quase não levanto a cabeça. Em toda a casa coloquei almofadões e esteiras no chão, há uma única cadeira, feita de sândalo, para mim bela, e decorativa. A vizinha ajeita suas volumosas formas na cadeira perfumada, olha-me:
- Então vizinha, soube que tá a sofrer de febres? Ysh, senhora, sabe que anda por aí coisas de mal, muitas pessoas com febres, minha prima também, depois nunca mais levantou. Mesmo aqui no prédio senhora de terceiro andar, conhece aquela clara que tem aquele marido monhê, sabe não é? Sim, então, mesmo ela teve febres, mas bebé dela, nasceu mês passado vizinha viu? Não apanhou. Mas aquele marido parece tem negócios de África do sul que não vão bem. Talvez ele pediu ajudas erradas, senhora conhece essas coisas, né? Sim, pois, então é isso talvez foi isso. Aceito um chá vizinha. – sem necessitar de uma palavra minha a empregada prepara chá - Mas eu estava muito preocupada, mesmo porque faz dois dias que nem lhe via sair! Vizinha assim podia avisar. Avisa! Porque eu estou aqui, posso ser sua mãe, sua família para lhe ajudar, né vizinha? Eu mesmo aqui na porta passava e estava preocupada, hoje vi chegar empregada então vim lhe ver.
Eu olho-a apenas, acho que tento sorrir. Tenho febre há três dias, ou serão quatro? Os medicamentos não parecem surtir qualquer efeito, a febre não baixa e tenho momentos que parece que quase deliro. Acho que D. Matilde, a vizinha do lado, nunca tinha entrado na minha casa, mas o à vontade com que o fez parece indicar que sim. Oiço o que ela diz, de vez em quando, entre os bates de tambor solta uns yée yée bem dispostos. Depois de falar toma o chá. Olha à sua volta, admirando com curiosidade as coisas nas paredes, nas prateleiras. Bebe o chá e sorri para mim.
- Bom, vizinha, eu já fui, obrigada pelo chá. Suas melhoras.
- Sim, obrigada pela visita, eu estou a tomar medicamentos, febre vai passar.
- Mas vizinha, medicamentos que disse? Assim comprimido mesmo? Vizinha não devia, está cá já alguns anos já devia saber isso aí não é doença vizinha – é feitiço.
E depois? Como posso dizer? Posso dizer que depois melhorei.
O que me move e me alimenta os dias aqui continua a ser o exotismo quente e os ritmos mornos dos dias. Por isso a febre no fundo não passou, para mim África é doce.
Pára o tambor, ele aparece no quarto:
– Ei, tem bom som hoje na rua d’arte, bazamos? – eu sorrio:
- Sabes, eu ainda me sinto um bocado mal.
- Mas ouviste a vizinha, não é doença isso, é feitiço! Tambores são terapêuticos sabes?
- Ya… sei.